Friday, October 22, 2021
Revista Científica Digital da SBEM-SP


Estudo prospectivo associa excesso de peso na infância e risco de fraturas

Por Manuela Rocha Braz , em OSTEOMETABOLISMO , dia 31 de agosto de 2020 Tags:, , , , , ,

A obesidade infantil é um dos grandes problemas atuais de saúde pública no mundo inteiro, inclusive no Brasil, já tendo sido associada a doenças cardiorrespiratórias, diabetes e transtornos de saúde mental, além de mortalidade precoce. Em adultos, a obesidade implica maior risco de fraturas, sendo aparentemente protetora em alguns sítios e aumentando o risco em outros. Na infância, estudos retrospectivos associam a obesidade a um maior risco de fraturas, em especial de membros superiores.

Existem diversos potenciais mecanismos pelos quais a obesidade teria um efeito deletério sobre a saúde óssea:

— Baixos níveis de vitamina D

— Estado pró-inflamatório

— Níveis alterados de adipocinas e citocinas

— Menor atividade dos osteoblastos

— Cargas maiores sobre os membros

— Menor prática de atividade física

— Alteração do equilíbrio

Preschool Obesity Is Associated With an Increased Risk of Childhood Fracture: A Longitudinal Cohort Study of 466,997 Children and Up to 11 Years of Follow-up in Catalonia, Spain é o primeiro grande estudo prospectivo investigando primariamente a associação entre excesso de peso na infância precoce (ao redor dos quatro anos) e risco de fraturas ao longo da infância (entre quatro e 14 anos). Como objetivo secundário, foi analisada a associação entre IMC e sítios anatômicos de fratura. É um estudo de coorte prospectivo e observacional. Os autores coletaram dados do sistema de saúde da Catalunha, com acesso a uma grande amostra populacional representativa da região, em um contexto de seguimento pediátrico de rotina.

Características da coorte

Foram incluídas crianças que apresentavam dados concomitantes de peso e altura medidos aos quatro anos (cerca de seis meses). De 803.921 crianças elegíveis, esses dados puderam ser obtidos em 466.997. Entre as crianças elegíveis, houve maior prevalência de nacionalidade espanhola (89% vs. 81%), porém sem diferença entre os grupos para as demais características analisadas. A mediana de seguimento foi de 4,9 anos (intervalo interquartil 2,5 a 7,6 anos), entre os anos de 2006 e 2013.

As crianças foram classificadas de acordo com o Z-escore de seu IMC aos quatro anos em baixo peso (Z < -2,0), peso normal (Z entre -2,0 e +2,0), sobrepeso (Z > +2,0) e obesidade (Z > +3,0). Sítios anatômicos de fratura foram definidos como axial (coluna, tórax, pelve e clavícula), membro superior e membro inferior. Foi observado sobrepeso em 5,7% e obesidade em 2,0% da coorte.

Resultados

A incidência cumulativa de fraturas na infância (quatro a 14 anos de idade) foi 10,19% (IC 95% 9,96% – 10,43%). Após estratificação por sexo, a incidência cumulativa foi maior nos meninos (12,05% [IC 95% 11,66% – 12,44%]) do que nas meninas (8,24% [IC 95% 7,99% – 8,49%]). Fraturas de membro superior foram as mais frequentes em ambos os sexos, seguidas de fraturas de membro inferior, e com raros eventos de fratura axial.

Nas diferentes faixas de IMC, foram observadas as seguintes incidências de fratura (IC 95%): baixo peso 9,20% (3,79% – 14,61%), peso normal 10,06% (9,82% – 10,29%), sobrepeso 11,28% (10,22% – 12,35%) e obesidade 13,05% (10,69% – 15,41%). Quando analisado por IMC e sexo, a incidência cumulativa de fratura na infância foi maior em crianças com obesidade, independentemente do sexo.

Considerando o grupo de peso normal como referência, a razão de risco ajustada para qualquer tipo de fratura foi no grupo com sobrepeso 1,12 (IC 95% 1,06 – 1,19%) e no grupo com obesidade 1,23 (IC95% 1,13 – 1,34%). A razão de risco para fraturas de membro superior e inferior foi significativamente maior nos grupos com sobrepeso ou obesidade, em relação ao peso normal, com maior associação entre obesidade e risco de fratura de membro inferior. Não foi observada associação entre IMC aumentado e risco de fratura axial.

Foi realizada uma análise mais específica do sítio de fratura, mostrando associação mais evidente entre obesidade e risco de fraturas distais, como mão (razão de risco ajustada 1,37 [IC95% 1,14-1,66]), tíbia/fíbula (RRa 1,81 [1,38-2,37]) e pé (RRa 1,66 [1,32-2,10]).

Discussão

O estudo mostrou uma associação positiva entre o IMC pré-escolar (aos quatro anos) e o risco de fraturas ao longo da infância (entre quatro e 14 anos). Ter um IMC de obesidade aos quatro anos se associou com excesso de risco de 70% de fratura de membro inferior e de 20% de membro superior. O IMC de sobrepeso se associou com excesso de risco de 40% e 10%, respectivamente. Essa associação de risco foi independente de idade, status socioeconômico, sexo e nacionalidade.

A análise secundária mostrou que a associação de risco variou de acordo com o sítio de fratura, com maior risco associado a fraturas distais (mão, pé, tíbia e fíbula). Estudos prévios em adultos apresentam alguns resultados discrepantes, mas de forma geral a obesidade em mulheres parece estar associada a excesso de risco de fraturas em sítios distais, e em homens há evidência de proteção contra fraturas distais (ref: Lespessailles et al, JCEM 2019).

O estudo tem como principal força avaliar uma grande amostra populacional de alta representatividade, reduzindo o viés de seleção, e com longo tempo de acompanhamento prospectivo.

Como limitação, a prevalência de obesidade aos quatro anos foi relativamente baixa na população estudada, o que pode impedir a generalização dos achados da pesquisa. No Brasil, dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) de 2019 mostram, entre cinco e 10 anos de idade, uma prevalência de sobrepeso de 16,33%, e de obesidade 9,38%, bem superiores às taxas da coorte desse trabalho (5,7% e 2,0%, respectivamente).

Outra limitação foi o uso do IMC para o diagnóstico de obesidade, que pode ser um fraco preditor de massa gorda total em crianças. Além disso, o estudo não avaliou o impacto da prática de atividade física sobre o risco de fratura nos diferentes grupos de IMC.

Uma possível aplicação dos resultados dessa pesquisa na prática clínica seria a adoção de medidas de intervenção para o tratamento do excesso de peso já nos primeiros anos de vida, tendo em vista uma potencial prevenção de fraturas ao longo da infância. Por outro lado, a perda de peso em adultos é associada à redução da densidade mineral óssea. São necessários novos estudos para elucidar o impacto dessa intervenção sobre a saúde óssea.

Manuela Rocha Brazclique para ver o CV Lattes


Referência

Preschool Obesity Is Associated With an Increased Risk of Childhood Fracture: A Longitudinal Cohort Study of 466,997 Children and Up to 11 Years of Follow-up in Catalonia, Spain

imagem: iStock

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