Wednesday, December 6, 2023
Revista Científica Digital da SBEM-SP


The American Society for Bone and Mineral Research: destaques do congresso 2023

Por Monique Nakayama Ohe , em OSTEOMETABOLISMO OSTEOPOROSE , dia 9 de novembro de 2023 Tags:, , , , , , ,

O Encontro Americano de Metabolismo Ósseo (ASBMR) aconteceu de 13 a 16 de outubro em Vancouver, Canadá. A Dra. Monique Ohe, endocrinologista da Escola Paulista de Medicina (Unifesp), acompanhou presencialmente as aulas e elenca abaixo alguns destaques.

Encaleret: medicação promissora

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC8090084/

Estudo multicêntrico apresentado por Rachel Gafni e Michael Collins, do National Institutes of Health (NIH), o Encaleret é um calcilítico para o tratamento da hipocalcemia autossômica dominante tipo 1. Esse trabalho está em fase 2 com segmento de 18 meses.

A hipocalcemia autossômica dominante 1 traz uma ativação do receptor sensor de cálcio, levando a um quadro de decréscimo de paratormônio, de hipocalcemia e um aumento muito importante da calciúria.

O Encaleret é um calcilítico oral, uma medicação muito promissora. Durante a fase 2 as doses estão sendo tituladas e apresentam resultado muito interessante, trazendo normalização da calcemia e melhora da calciúria. A medicação foi bastante tolerada no período de 18 meses, e isso é importante, já que a doença é de difícil controle bioquímico.

O trabalho mostrou que não houve progressão da calcificação renal ao ultrassom ao final de 12 meses. O fósforo se reduz para o normal assim como o magnésio. Além disso, foi observado que a medicação aumenta os marcadores de turnover ósseo, dado aqui, duas vezes ao dia. Os estudos seguem para fase 3 com recrutamento de pacientes.

Ritmo circadiano e saúde óssea

O simpósio sobre ritmo circadiano e saúde óssea foi apresentado por Kendall Moseley, da John Hopkins. Nele, ela lembrou que os genes envolvidos na remodelação óssea são ritmicamente expressos em modelos animais. Então sabemos que há um ritmo circadiano que controla os biomarcadores ósseos P1NP, CTX, sendo que a relação é controlada pelo ritmo circadiano.

Já existem estudos com trabalhadores que alternam turnos e associação com fratura. No relato do trabalho experimental com animais e modelos animais que alternam períodos de luz e de escuro, que imitariam esses turnos, haveria uma disruptura nos clock genes que são expressos no osso.

Nos modelos animais é observada a redução de biomarcadores que vão alterando a estrutura óssea e mineralização, tanto de osso cortical quanto de osso trabecular. Portanto haveria influência desse ritmo no controle biológico da formação e reabsorção óssea. Interessante que em trabalhos com indivíduos que estão expostos a turnos noturnos, viu-se que a atividade física é fator protetor sobre o osso. Além disto, surge um conceito de cronoterapia: a influência no horário para o tratamento, para melhorar tanto a eficácia como a redução dos efeitos colaterais, no que tange a viabilidade das medicações. Como exemplo prático e simples temos a teriparatida, medicação formadora de osso e que deve, se possível, ser aplicada pela manhã, porque traz melhor resposta se administrada neste período do dia.

Ainda dentro simpósio, a pesquisadora Christine Swanson, do Colorado, falou sobre os efeitos do sono na saúde óssea – https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29229227/. Ela citou que as horas recomendadas de sono para adultos seriam de 7 a 9 horas, relembrando de novo a história dos clock genes que são presentes nas células ósseas. E que os indivíduos com menos de 5 horas de sono vão trazer uma massa óssea de coluna e fêmur prejudicada, com aumento de risco de queda e menor densidade mineral óssea (DMO), além de mudança nos marcadores de turnover ósseo.

Nos experimentos, nas mulheres – principalmente adolescentes – que dormem mais, há melhor DMO. Ou seja: ritmo circadiano e privação de sono estão associados à qualidade óssea.

Osteoporose e exercício

Na aula de Belinda Beck, da Griffith University, ficou clara a resposta que o exercício tem além da medicação. Foi mostrado o efeito de intervenções (trabalho Lift More, de 2018) de exercícios de alta intensidade de 30 minutos, por oito meses, duas vezes por semana. Foi observado aumento da DMO, tanto em coluna quanto em femur, inclusive, a mudança da forma e do tamanho, da geometria desse osso- espessura cortical visto por análise da microarquitetura óssea. Ou seja, o exercício leva a uma adaptação estrutural do osso.

O exercício traz resposta na DMO, tanto em coluna quanto em fêmur, bem como na redução de quedas e, portanto, de até 70% de redução de fraturas. O que chama muito a atenção é que em todos esses trabalhos com atividade física são ressaltadas duas questões: (1) a atividade física não é leve e sim de alta intensidade, (2) e sempre com supervisão especializada.

Palopegparatida

Outro estudo que já estava em andamento (fase 3) foi apresentando por Anisha Khan, da McMaster, e versa sobre o tratamento do hipoparatiroidismo com palopegparatida.

Foram 52 semanas de análise com foco na segurança óssea: iniciou-se com 82 adultos e terminou com 72 pacientes, entre casos controle, utilizando o que seria o transcon. Foi observada estabilização dos níveis de cálcio e desmame progressivo da necessidade medicamentosa. Na semana 52, todos conseguiram suspender o uso da vitamina D ativa, e na verdade havia uma dúvida se a medicação poderia fazer perder o osso cortical. E o que os pesquisadores mostraram é que há uma certa redução dessa DMO até a semana 26. Os biomarcadores e a DMO andam juntos, então é possível observar biomarcadores subirem e DMO reduzir até a semana 26, mas depois biomarcadores estabilizam e a DMO para de cair. Mesmo no rádio distal há estabilidade após a semana 22.

Além da questão da segurança óssea houve redução da calciúria e o controle da fosfatemia. Assim, houve segurança óssea e a manutenção bioquímica, tanto do cálcio sérico normal quanto do cálcio urinário baixo e do fósforo voltando para o normal. Ou seja, a medicação realmente parece ser segura e muito promissora.

Bloqueio do FSH como tratamento para obesidade e degeneração cognitiva

Estudo que chamou muito a atenção foi apresentado por Judit Gimenez Roig, da Icahn School of Medicine at Mount Sinai, Estados Unidos. Neste estudo em modelos animais, experimental, haveria uma possibilidade de tratar obesidade e a degeneração neurocognitiva com uma única droga bloqueadora de FSH. Então haveria uma capacidade de prevenção, tanto da perda de memória quanto do ganho de peso, trazendo o FSH como um grande vilão e um monoclonal tentando bloquear o FSH.

Tratamento promissor para osteopetrose

Outro trabalho de grande interesse foi o tratamento de osteopetrose apresentado pela Anna Maria Teti, da University of L’Aquila, Itália, que propõe a terapia de interferência de RNA.

Nesse trabalho experimental, através de técnica de small interfering RNA, em que há reconhecimento apenas da parte mutante do modelo animal, com injeções subcutâneas, tituladas pelo peso, em ratos adultos, foi observado decréscimo na expressão do gene, aumento do CTX sérico desses animais, e após sacrifício dos animais e realização de biópsia óssea, observou-se melhora importante do osso acometido pela osteopetrose, apresentando parâmetros de microarquitetura muito próximos do osso normal.

Então, o que aparentemente se consegue é o resgate de osteoclastos viáveis, uma técnica de interferência no RNA: ou seja, uma terapia em que se reconhece só a parte mutada conseguindo o resgate de osteoclastos viáveis.

A partir daqui o próximo passo seria testar a segurança clínica, mas foi muito interessante pensar que haja talvez alguma luz para tratar uma doença tão complicada e, até então, sem perspectiva de tratamento.

Monique Ohe – Clique para ver o CV Lattes

imagem: iStock

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