Estudo inédito avalia microarquitetura óssea em pacientes com doença de Addison
No início deste ano, foi publicado no Journal of the Endocrine Society um trabalho inédito sobre a microarquitetura óssea em pacientes com doença de Addison.
Skeletal Microstructure in Addison’s Disease
https://academic.oup.com/jes/article/10/1/bvaf180/8320419
Escrito pelo Dr. Leonardo Bandeira e liderado pela Profª. Dra. Marise Lazaretti-Castro, o estudo é resultado de uma colaboração entre os Grupos de Doenças Osteometabólicas e de Doenças Adrenais da Endocrinologia da Unifesp, com participação do eminente Dr. John Bilezikian, da Universidade Columbia, de Nova Iorque. Essa publicação coloca em evidência nossa capacidade como país de produzir dados científicos de relevância e a importância da colaboração entre diferentes grupos para tal fim.
Trata-se de um estudo de corte transversal que analisou dados de HR-pQCT (high-resolution peripheral quantitative computed tomography) em 19 pacientes com insuficiência adrenal (IA) primária, comparados a um grupo controle pareado por idade, sexo e etnia. A média de tempo do diagnóstico de IA era 13,2 anos, e os pacientes usavam uma dose diária média equivalente a 17,4 mg/m2 de hidrocortisona. Seis dos 19 pacientes tinham história prévia de fratura de extremidades, e nenhuma fratura vertebral foi observada no exame VFA (vertebral fracture assessment). Eram pacientes orientados quanto ao consumo de cálcio e suplementados com vitamina D – consumo médio de cálcio de 903 mg por dia e 25-hidroxivitamina D sérica média de 34,1 ng/ml.
A HR-pQCT é um método de imagem não invasivo que permite a avaliação de parâmetros da microarquitetura óssea, como número e espessura trabecular, espaçamento entre as trabéculas, espessura e porosidade corticais. Mede também a densidade óssea volumétrica, excluindo assim a interferência do tamanho ósseo sobre o resultado, como acontece na densitometria óssea, que mede a densidade óssea areal. Com os dados desse exame, é possível realizar ainda uma análise de elemento finito, estimando a resistência dos ossos analisados (tíbia e rádio).
A análise de HR-pQCT nesses pacientes mostrou que os pacientes com IA, em relação aos controles, apresentavam deterioração da maioria dos parâmetros avaliados em tíbia, incluindo menor densidade mineral óssea volumétrica cortical e trabecular, redução da área e espessura corticais, menor número de trabéculas e maior separação entre estas. Curiosamente, no rádio foi observada deterioração significativa apenas no número de trabéculas, e tendência a maior separação entre elas e menor densidade óssea volumétrica. A análise de elemento finito mostrou menor resistência óssea da tíbia, mas não do rádio.
Tais resultados corroboram a noção de deterioração óssea em pacientes com IA, seja pela doença de base, seja pelo tratamento que não consegue mimetizar com perfeição a secreção fisiológica de cortisol. Os autores chamam atenção para o fato de que a dose média de glicocorticoide dos pacientes (equivalente a 17,4 mg/m2/dia de hidrocortisona) é superior à estimativa de produção fisiológica de glicocorticoide (9-11 mg/m2dia), provavelmente criando um hipercortisolismo relativo.
Outro dado observado foi que os pacientes com IA tinham menos massa magra apendicular do que os controles, fato atribuível à doença de base e/ou tratamento, e com impacto na saúde óssea. Houve uma correlação positiva entre o índice de massa muscular e a resistência óssea estimada, indicando que uma maior massa muscular estava associada a melhor competência mecânica.
Não houve correlação entre os marcadores de remodelação óssea e os parâmetros de microarquitetura, sugerindo pouca relevância desses marcadores no contexto estudado.
Os autores concluem que a fragilidade óssea observada em pacientes com IA pode estar relacionada à perda de massa muscular e dos cumulativos de GC. Esses dados reforçam a importância dos cuidados com a saúde óssea nessa população, incluindo a otimização do consumo de cálcio, manutenção de níveis ideais de vitamina D, controle de fatores de risco e atenção à massa muscular dos pacientes. Além disso, realça a importância do cuidado em evitar doses altas de glicocorticoide, mesmo no cenário desafiador da IA.
Manuela Rocha Braz – clique para ver o CV Lattes

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