Friday, April 19, 2024
Revista Científica Digital da SBEM-SP


Atualizações em disfunções tireoidianas discutidas no V SIADTI – um breve resumo

Por Carolina Castro Porto Silva Janovsky , em TIREOIDE , dia 20 de março de 2024 Tags:, , , , ,

Neste artigo, trago alguns highlights na área de disfunções tireoidianas do que foi apresentado no Simpósio Internacional de Atualização das Doenças da Tireoide, durante os dias 24 e 25 de fevereiro.

Na primeira manhã, o foco foi hipotireoidismo. O hipotireoidismo, uma das condições endócrinas mais prevalentes, requer uma abordagem cuidadosa e individualizada, particularmente em populações especiais como idosos e em contextos clínicos complexos, como sua associação com a síndrome metabólica.

Além disso, a definição de sucesso no tratamento do hipotireoidismo, tradicionalmente ancorada nos níveis de TSH, tem sido questionada e reavaliada. O hipotireoidismo em idosos representa um desafio diagnóstico e terapêutico, dada a prevalência aumentada de sintomas inespecíficos que podem mimetizar o processo natural de envelhecimento ou outras comorbidades.

O foco da palestra proferida pelo Dr. José Augusto Sgarbi foi não só a necessidade de um diagnóstico correto, mas sempre lembrar que o envelhecimento vem acompanhado de um aumento fisiológico do TSH e isso deve ser levado em consideração na hora de indicar o tratamento da doença subclínica: o diagnostico de hipotireoidismo subclínico num indivíduo de 40-50 anos não é o mesmo de um indivíduo com mais de 80 anos, e o tratamento neste idoso pode representar mais riscos do que benefícios.

Outro ponto interessante foi a palestra da Dra. Lea Maciel sobre o TSH como único marcador de eutiroidismo. A determinação do TSH sempre foi o pilar do monitoramento do tratamento do hipotireoidismo. No entanto, a ênfase exclusiva no TSH pode não refletir adequadamente o estado metabólico e sintomático do paciente.

Alguns pacientes continuam a apresentar sintomas de hipotireoidismo apesar dos níveis normais de TSH, sugerindo que outros biomarcadores ou abordagens diagnósticas podem ser necessários. Além disso, a variabilidade individual na conversão de T4 para T3 e diferenças nos receptores de hormônios tireoidianos podem influenciar o bem-estar do paciente e devem ser consideradas na avaliação do sucesso terapêutico.

Muito tem se falado acerca do uso do T4 livre como melhor marcador de eutiroidismo ou disfunção tiroidiana como na recente publicação do consórcio Thyroid Studies Collaboration no Lancet Diabetes and Endocrinology.

Outro foco foi a tireoidite de Hashimoto, em que os palestrantes revisitaram mecanismos de desenvolvimento, quais fatores nutricionais podem ter influência na prevenção e tratamento e qual sua relação com câncer diferenciado de tireoide.

A Dra. Maria Izabel Chiamolera destacou os disruptores endócrinos, como o bisfenol A como potenciais preditores de doença tireoidiana autoimune, assim como o papel promissor do selênio e vitamina D como reguladores da doença autoimune da tiroide, com estudos recentes mostrando associação desta suplementação com redução de níveis de TSH e anticorpos antitireoperoxidase.

Em relação aos suplementos alimentares, Dra. Rosalia Padovani apontou a necessidade de screening para deficiência de ferro e a necessidade de reposição, caso os níveis estejam abaixo de 100 e paciente mantendo queixas de hipotiroidismo. Lembrou também de evitar excesso de iodo, suplementar pacientes deficientes em vitamina D e selênio (o que é raro no Brasil), focar na dieta plant-based e não contraindicar glúten para quem não tenha intolerância ou doença celíaca.

Na área de câncer, o Dr. Rafael Scheffer comentou que a tireoidite de Hashimoto parece ser um fator protetor de agressividade ao carcinoma diferenciado da tireoide.

Dra. Flavia Valente falou sobre a influência da COVID-19 nas doenças da tireoide como tireoidites subagudas, mas também na influência do vírus no eixo hipotálamo-hipófise-tireoide, mediado por citocinas e receptores da enzima conversora de angiotensina tipo 2 (ACE-2).

Finalmente, pude falar sobre a influência da disfunção tireoidiana no diabetes e cirurgia bariátrica. Sabe-se que o hipotireoidismo não tratado pode levar a aumento da incidência de diabetes a médio e longo prazo devido a alterações no metabolismo glicêmico, principalmente aumento da resistência a insulina. Os níveis de TSH elevados também influenciam no ganho de adiposidade levando à obesidade.

Apesar da perda de peso levar à diminuição das necessidades de levotiroxina, a cirurgia bariátrica pode influenciar a farmacocinética de medicamentos tireoidianos e alterar para mais a necessidade hormonal em pacientes com hipotireoidismo prévio. Por isso, é importantíssimo manter acompanhamento dos níveis hormonais pós-cirurgia.

Por fim, o Dr. Gustavo Penna abordou os estudos que apoiam o uso de combinação de T4 e T3 para pacientes com hipotireoidismo que mantêm queixas mesmo com reposição adequada de levotiroxina. Ele destaca que o uso de T3 pode ser necessário e, quando for utilizado, deve-se evitar fórmulas manipuladas, usando apenas a medicação vendida em farmácias (no Brasil, pode ser importado).

No domingo, a atenção foi para o hipertiroidismo. O Dr. Danilo Villagelin Neto abriu o dia falando da importância de se verificar a qualidade de vida dos doentes com hipertireoidismo antes e após tratamento, através do uso de diversos questionários como SF36, GO-QoL, ThyPRO 39 ou mesmo entrevistas individualizadas.

O Dr. Adriano Namo Cury palestrou sobre o uso prolongado dos antitiroidianos que é seguro e, a depender do fenótipo e exames laboratoriais do doente, pode ser um bom método de se atingir remissão da doença de Graves.

Como terapia definitiva para o hipertiroidismo, o médico nuclear Dr. George Coura-Filho discursou sobre a radioiodoterapia. Lembrou da não necessidade de dieta pobre em iodo antes da dose terapêutica e da importância de individualizar o tratamento com cálculo de dose, principalmente para bócios grandes ou tempo prolongado de doença.

Por fim, o cirurgião de cabeça e pescoço, Dr. Celso Friguglieti, defendeu a cirurgia como melhor opção para tratamento da Doença de Graves. Para os clínicos, lembrou da importância de um bom preparo pré-operatório, levando em consideração o uso de lugol/iodeto de potássio a fim de reduzir organificação e secreção hormonal e, também, vascularização da glândula, antitiroidianos, beta-bloqueadores e correção da vitamina D. Além disso, importante indicar um cirurgião com alto volume de cirurgias deste tipo para evitar complicações como hipoparatireoidismo ou paralisia do nervo laríngeo recorrente.

Em relação à Orbitopatia de Graves (OG) ou doença ocular da tiroide, as médicas oftalmologistas Dras. Ivana Romero e Gherusa Milbratz apresentaram brilhantemente a forma de avaliar atividade e gravidade da OG e o tratamento cirúrgico, com apresentações bastante práticas.

A minha parte foi apresentar sobre o tratamento clínico que no Brasil ainda é bastante centralizado no uso de corticosteroides sistêmicos e radioterapia ocular, mas que existem diversas opções de tratamentos on e off-label para os pacientes que não apresentam uma boa resposta ao tratamento inicial. Destaque para os imunobiológicos que podem ser utilizados como rituximabe, tocilizumabe; ciclosporina, micofenolato, e a nova droga aprovada para tratamento pela ANVISA, o teprotomumabe, inibidor do receptor de IGF-1.

O Simpósio Internacional de Atualização das Doenças da Tireoide é organizado pelos cirurgiões de cabeça e pescoço Drs. Erivelto Volpi e Evandro Vasconcelos.

Carolina Castro Porto Silva Janovsky – Clique para ver o CV Lattes

Imagem: iStock

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