EBT 2026: Abordando as causas principais e as estratégias preventivas no câncer de tireoide
Introdução
A compreensão atual da carcinogênese tireoidiana transcende o modelo da mutação oncogênica isolada e incorpora uma visão integrada de interação entre fatores genéticos e ambientais (endógenos e exógenos). A conferência apresentada no Encontro Brasileiro de Tireoide 2026 ofereceu uma análise aprofundada dos fatores etiológicos do câncer diferenciado de tireoide (CDT) e das possibilidades concretas de prevenção primária, com ênfase em modificações do estilo de vida e redução de exposições ambientais.
1. Epidemiologia e aumento da incidência
O câncer de tireoide se encontra entre os 10 tumores mais frequentes no mundo. No Brasil, ocupa a quinta posição entre as mulheres, de acordo com estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca). Entre 1990 e 2021, observou-se aumento global da incidência, com elevação anual de 1,17% em crianças e adolescentes, especialmente em regiões de baixo índice sociodemográfico, onde o acesso a métodos de diagnóstico por imagem é teoricamente mais limitado (Lei et al., 2026; Li et al., 2025).
Parte desse aumento é atribuível ao sobrediagnóstico decorrente do uso indiscriminado da ultrassonografia de alta resolução, conforme demonstrado pelo exemplo paradigmático da Coreia do Sul (Ahn et al., 2014; Li et al., 2024). Estima-se que, globalmente, 75,2% dos casos diagnosticados representem sobrediagnóstico (Li et al., 2024). No entanto, evidências indicam também aumento real da incidência, incluindo:
- Crescimento de tumores maiores que 4 cm (Lim et al., 2017; Cosme et al., 2024).
- Aumento de casos em estádios avançados e com metástases linfonodais (Lim et al., 2017).
- Incremento da incidência em crianças e adolescentes, populações não submetidas a rastreamento sistemático (André et al., 2025; Li et al., 2025).
- Elevação paralela de fatores de risco estabelecidos, como exposição à radiação e obesidade (Chen & Haymart, 2026).
2. Fatores de risco não modificáveis
2.1. História familiar e síndromes genéticas
A história familiar de câncer de tireoide constitui fator de risco relevante. Metanálise recente demonstrou aumento do risco individual na ordem de 4,5 vezes na presença de parente afetado (Landau et al., 2025). Entre as síndromes hereditárias, destacam-se:
- Carcinoma medular de tireoide (CMT) — associado a variantes germinativas do proto-oncogene RET, nas síndromes de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (MEN2A e MEN2B) e no CMT familiar isolado.
- Carcinoma diferenciado de tireoide (CDT) — pode estar associado à polipose adenomatosa familiar (gene APC) e a outras síndromes menos frequentes.
2.2. Genes de proteção e suscetibilidade
A suscetibilidade individual ao câncer de tireoide é modulada por variantes em genes envolvidos no reparo do DNA (ex: ATM), detoxificação de xenobióticos (ex: CYP1A1), resposta ao estresse celular e supressão tumoral. Estudos prévios de nosso grupo de pesquisa no Gemoca/Unicamp demonstraram que variantes funcionais do gene ATM — uma quinase central na resposta a quebras de dupla fita do DNA induzidas por radiação — se associam a maior risco de CDT (Xu et al., 2012).
3. Fatores ambientais modificáveis
3.1. Radiação ionizante
A glândula tireoide infantil apresenta elevada radiossensibilidade. Estudos pós-Chernobyl demonstraram que cerca de 97,6% dos casos de carcinoma papilífero ocorreram em indivíduos expostos antes dos 10 anos de idade (Kaiser et al., 2016). O dano genômico induzido pela radiação inclui quebras de fita dupla, geração de espécies reativas de oxigênio e rearranjos cromossômicos, sendo o gene ATM central na resposta celular a essas agressões.
3.2. Obesidade e inflamação crônica
A obesidade é reconhecida como estado metabólico pró-tumorigênico. Análise agrupada de 24 milhões de indivíduos demonstrou que sobrepeso e obesidade se associam a aumento significativo do risco de CDT (RR = 1,26 e 1,50, respectivamente), enquanto peso normal e abaixo do peso conferem efeito protetor (Youssef et al., 2021). O efeito foi mais pronunciado em mulheres do que em homens.
Os mecanismos propostos incluem inflamação crônica de baixo grau, resistência insulínica, disfunção de adipocinas (aumento de leptina, redução de adiponectina), estresse oxidativo e alterações hormonais (aromatização periférica de estrogênios) (Park et al., 2014; Marcello et al., 2014).
Modelagens epidemiológicas canadenses sugerem que o uso de terapias antiobesidade (agonistas de GLP-1) poderia prevenir até 71.281 cânceres relacionados à obesidade entre 2031 e 2049, incluindo câncer de tireoide (Carbonell et al., 2024).
3.3. Iodo e dieta
O iodo é substrato essencial para a síntese dos hormônios tireoidianos. Tanto a deficiência quanto o excesso podem alterar a homeostase tireoidiana. Metanálise recente demonstrou associação direta entre excreção urinária de iodo e risco de câncer de tireoide, especialmente microcarcinoma papilífero (Li & Yu, 2026). A relação entre ingestão de iodo e risco tumoral, contudo, requer investigação adicional, considerando potenciais fatores de confusão como padrão alimentar, estilo de vida e microbiota (Ruggeri et al., 2026).
3.4. Disruptores endócrinos
3.4.1. Bisfenol A (BPA)
O bisfenol A é amplamente utilizado na produção de plásticos policarbonatos e resinas epóxi, com produção anual superior a seis milhões de toneladas. Estudos experimentais demonstraram que o BPA, mesmo na dose regulatória considerada segura (1 μg/mL), induz dano significativo ao DNA em células tireoidianas normais e cancerígenas, com efeitos genotóxicos. Células portadoras de mutação se mostraram particularmente vulneráveis. O contexto genético determina, portanto, a suscetibilidade celular aos disruptores endócrinos.
Análise global de transcriptoma revelou que o BPA altera genes ligados ao ciclo celular, estresse oxidativo e metabolismo energético, com maior efeito em células já portadoras de mutações oncogênicas, sugerindo papel promotor em células pré-neoplásicas.
3.4.2. Pesticidas e herbicidas (Roundup®)
Estudos com células tireoidianas humanas demonstraram que o herbicida Roundup® exerce efeitos citotóxicos em altas concentrações, mas estimula proliferação celular em baixas concentrações (65 µg/L), abaixo dos limites regulatórios atuais (Dal’ Bó et al., 2022). Células BCPAP (portadoras da mutação BRAF V600E) se mostraram altamente sensíveis, com redução de viabilidade e estímulo persistente à proliferação. Os achados sugerem que o Roundup® atua como desregulador endócrino com potencial papel promotor tumoral, especialmente em carcinomas papilíferos conduzidos pela via MAPK (Dal’ Bó et al., 2026).
3.4.3. Outros compostos
Retardadores de chama, nitratos, nitritos e compostos perfluoroalquilados (PFAS) também foram identificados como potenciais moduladores de risco para câncer de tireoide, com evidências heterogêneas, mas plausibilidade biológica (Liu et al., 2022; Kruger et al., 2022).
3.5. Fatores biológicos (vírus)
Herpesvírus (especialmente EBV e CMV) têm sido implicados na carcinogênese tireoidiana. Estudos demonstraram soropositividade e títulos elevados de anticorpos contra CMV e EBV em pacientes com câncer de tireoide, bem como expressão de EBER (padrão-ouro para detecção de EBV latente) em células de carcinoma papilífero. Linhagens de células tumorais tireoidianas (TPC-1, BCPAP, 8505C) se mostraram permissivas à entrada do EBV, com consequente modulação de vias de sinalização MAPK e AKT e expressão de oncogenes relacionados à progressão tumoral (Li & Li, 2025).
3.6. Fatores geoquímicos (vulcanismo)
Regiões vulcânicas ativas, como o entorno do vulcão Etna, na Sicília, apresentam incidência de câncer de tireoide aproximadamente três vezes maior que áreas não vulcânicas (Pellegriti et al., 2009). A hipótese envolve exposição crônica a metais pesados e metaloides liberados pela atividade vulcânica, com efeitos genotóxicos e disrupção endócrina (Vigneri et al., 2017).
3.7. Estresse crônico e sono
Estudos epidemiológicos têm demonstrado associação entre estresse crônico, ansiedade e risco de câncer de tireoide. Coorte longitudinal com mais de 23 mil pacientes demonstrou que ansiedade se associou a risco duas vezes maior de desenvolvimento de câncer de tireoide (HR = 2,02) (Yen et al., 2025). Estudo caso-controle identificou associação direta entre estresse crônico e risco de câncer de tireoide (OR sempre estressante vs. frequentemente calmo = 3,07). Os mecanismos propostos incluem ativação do eixo HHA, imunossupressão, inflamação crônica e alterações do ritmo circadiano (Vignjević Petrinović et al., 2023).
4. Sobrediagnóstico e conduta clínica
A ultrassonografia de alta resolução identifica nódulos tireoidianos em 20% a 67% da população adulta (Hegedüs, 2004; Tan & Gharib, 1997), a maioria dos quais clinicamente irrelevantes. O rastreamento populacional indiscriminado em indivíduos assintomáticos sem fatores de risco deve ser evitado, pois gera sobrediagnóstico, biópsias desnecessárias, tireoidectomias evitáveis, complicações cirúrgicas (hipoparatireoidismo, lesão de nervo laríngeo recorrente), uso crônico de levotiroxina e ansiedade.
A investigação de nódulos tireoidianos deve ser individualizada, reservada para casos com nódulo palpável, linfonodomegalia cervical suspeita, rouquidão persistente, disfagia, história de radiação cervical, história familiar significativa ou achados incidentais com critérios ultrassonográficos de risco.
5. Estratégias de prevenção primária
Com base nos fatores de risco modificáveis identificados, as seguintes estratégias preventivas são recomendadas (Castro et al., 2024):
5.1. Redução da exposição à radiação ionizante
- Evitar exames radiológicos desnecessários, especialmente em crianças.
- Utilizar protetores cervicais quando indicado.
- Substituir por métodos sem radiação quando possível (ultrassonografia, ressonância magnética).
5.2. Controle da obesidade e promoção de atividade física
- Tratar obesidade como componente de prevenção oncológica.
- Atividade física regular associada a menor risco de CDT (Bui et al., 2022).
- Perda de peso reduz risco (Youssef et al., 2021).
5.3. Nutrição adequada
- Manter ingestão adequada de iodo, evitando tanto deficiência quanto excesso.
- Priorizar alimentos in natura e minimamente processados.
- Reduzir consumo de ultraprocessados, nitratos, nitritos e contaminantes.
5.4. Redução da exposição a disruptores endócrinos
- Preferir recipientes de vidro ou aço inoxidável em vez de plásticos.
- Evitar aquecer alimentos em recipientes plásticos.
- Escolher alimentos orgânicos para reduzir exposição a pesticidas.
- Evitar produtos com parabenos, ftalatos, herbicidas e inseticidas.
5.5. Manejo do estresse e higiene do sono
- Promover sono adequado e redução do estresse crônico.
- Intervenções comportamentais podem modular o risco por meio da melhora da função imune e redução da inflamação.
5.6. Abordagem individualizada de alto risco
- Indivíduos com história familiar significativa, exposição prévia à radiação cervical ou síndromes genéticas devem receber aconselhamento específico e vigilância individualizada, não rastreamento populacional.
6. Interação gene-ambiente e estilo de vida
Análise de dados do UK Biobank (264.956 participantes) demonstrou que fatores genéticos (escore poligênico de risco) e estilo de vida se associam independentemente à incidência de câncer de tireoide. Indivíduos com alto risco genético e estilo de vida desfavorável apresentaram aumento substancial do risco. Inversamente, um estilo de vida saudável atenuou a expressão fenotípica da predisposição genética, sugerindo que intervenções preventivas são particularmente benéficas em populações geneticamente suscetíveis.
7. Take-home messages
- O câncer de tireoide resulta de interação complexa entre suscetibilidade genética, fatores ambientais (radiação, disruptores endócrinos, obesidade, infecções virais) e estilo de vida.
- A radiação ionizante permanece o fator ambiental modificável mais solidamente associado ao CDT.
- A obesidade exerce efeito pró-tumorigênico por meio de inflamação crônica, resistência insulínica e disfunção adipocínica.
- Disruptores endócrinos (BPA, pesticidas, PFAS) apresentam evidências experimentais crescentes de efeitos genotóxicos e proliferativos, mesmo em doses regulatoriamente aceitas.
- O sobrediagnóstico impulsionado pela ultrassonografia indiscriminada deve ser combatido com investigação individualizada e baseada em critérios de risco.
- A prevenção primária é factível e deve ser incorporada à prática clínica endocrinológica, incluindo redução da exposição à radiação, controle ponderal, dieta adequada, redução de disruptores endócrinos e manejo do estresse.
- Um estilo de vida saudável pode atenuar a expressão do risco genético, reforçando a importância de estratégias preventivas personalizadas.
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Dra. Laura Sterian Ward – Clique para ver o CV Lattes

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