Saturday, May 8, 2021
Revista Científica Digital da SBEM-SP


Secreção residual de peptídeo C em pacientes com DM1 e implicação na prevenção de complicações microvasculares

Por Patrícia Moreira Gomes , em DIABETES , dia 28 de abril de 2021 Tags:, , , , ,

O achado de secreção residual de insulina em indivíduos com diabetes mellitus tipo 1 (DM1) de longa data tem recebido cada vez mais atenção. Evidências reunidas nas últimas três décadas sugerem que o peptídeo C seja um peptídeo biologicamente ativo, com vários estudos demonstrando ligação a vários tipos de células humanas, como células endoteliais, fibroblastos de pele e células tubulares renais.

Um exemplo é a aplicação de concentrações fisiológicas de peptídeo C às células tubulares renais e células endoteliais, resultando em aumento da expressão e atividade da óxido nítrico sintase endotelial (eNOS) e da produção de óxido nítrico, induzindo relaxamento do músculo liso vascular; também teve efeito anti-inflamatório ao reduzir a formação de espécies reativas de oxigênio (ROS), NF-kB, citocinas, quimiocinas resultantes da hiperglicemia.

Porém acreditava-se que apenas pacientes com DM1 que ainda mantinham níveis detectáveis de peptídeo C poderiam manter o benefício da secreção residual.

Recentemente, um estudo publicado no periódico Diabetes Care, pelos investigadores do SDRNT1BIO (Scottish Diabetes Research Network Type 1 Bioresource), avaliou o impacto da secreção residual de peptídeo C nas complicações microvasculares do DM1. A coorte de 6.076 indivíduos com DM1 foi seguida em média por 5,2 anos. Amostras de peptídeo C foram coletadas sem jejum prévio, com 88% dos indivíduos com glicemia concomitante > 90 mg/dL.

As análises foram feitas dividindo os níveis de peptídeo C em 3 categorias: > 0,6 ng/mL, 0,09 a < 0,6 ng/mL, 0,015 a < 0,09 ng/mL. Níveis mais baixos de secreção residual de peptídeo C também foram associados a um menor risco de episódios de hipoglicemia grave, mesmo após ajustes de covariáveis, incluindo duração do diabetes. A incidência de retinopatia também mostrou forte correlação inversa com níveis mais baixos de peptídeo C.

Tais resultados em uma grande coorte sugerem que mesmo a secreção residual mínima de peptídeo C poderia ter benefício clínico no DM1. No grupo de tratamento intensivo do Diabetes Control and Complications Trial (DCCT), um efeito sobre a hipoglicemia foi observado apenas em níveis de peptídeo C > 0,4 ng/mL.

Alguns pontos ainda precisam ser melhor esclarecidos: 1) a partir de qual momento do diagnóstico do DM1 a dosagem de Peptídeo C tem valor para avaliar algum grau de secreção residual; 2) qual a frequência para essa dosagem para avaliar manutenção ou redução na secreção; 3) de que forma a coleta do Peptídeo C pode ser feita na rotina clínica para melhor determinar a secreção residual; 4) a partir de qual glicemia podemos considerar um estímulo adequado para a coleta.

Traduzindo para a rotina clínica, a persistência da secreção do Peptídeo C pode ter implicações para o desenho de novas estratégias terapêuticas para preservar a função da célula beta em pacientes com DM1 de longa duração, como agonistas do receptor do GLP-1 ou novos secretagogos de insulina, em combinação com imunomoduladores.

Patrícia Moreira Gomes — clique para ver o CV Lattes


Referência:

Clinical Impact of Residual C-Peptide Secretion in Type 1 Diabetes on Glycemia and Microvascular Complications

                                                                         imagem: iStock

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