EBEP2026 – Puberdade e comportamento: hormônios não explicam sozinhos a adolescência
Durante o 10º Encontro Brasileiro de Endocrinologia Pediátrica, realizado de 23 a 25 de abril, em Brasília, a apresentação “Puberdade e Comportamento” propôs uma reflexão importante sobre a tendência de atribuir às alterações hormonais da puberdade, de forma isolada, as mudanças observadas no comportamento adolescente.
A partir da apresentação de casos clínicos contrastantes de meninas de 8 anos, foi possível demonstrar a dissociação entre maturação biológica e traços comportamentais, reforçando o papel modulador do ambiente social na construção da identidade adolescente. A seguir, a Dra. Angela Spinola, da Escola Paulista de Medicina, apresenta um panorama dos principais pontos abordados em sua aula.
Casos clínicos ilustrativos
Dois casos clínicos evidenciam a desconexão possível entre puberdade biológica e comportamento adolescente.
No caso A, havia puberdade precoce confirmada, com telarca Tanner II-III, pubarca Tanner II, LH puberal, pico de LH após GnRH > 8 UI/L, idade óssea adiantada em 1,5 ano e útero com características estrogênicas. Apesar dos marcadores hormonais e clínicos compatíveis com puberdade, a menina apresentava traços comportamentais infantilizados, como dependência materna extrema, uso de mamadeira aos 9 anos, preferência por crianças menores e ausência de vaidade ou comportamento de confronto. Nesse contexto, observa-se que a presença hormonal não foi suficiente para construir um comportamento tipicamente adolescente.
No caso B, por outro lado, não havia evidências puberais: as gonadotrofinas eram pré-puberais, o estradiol indetectável, a genitália pré-puberal e o útero e os ovários compatíveis com a idade. Ainda assim, a paciente apresentava comportamento marcadamente adolescente, com confronto com adultos, vaidade excessiva, espelhamento da irmã de 14 anos, uso de gírias, posturas associadas a uma faixa etária mais avançada e rejeição de pares da mesma idade. Nesse caso, o ambiente se mostrou o principal modulador do comportamento.
Esses achados contrariam a expectativa intuitiva de que os hormônios, por si só, determinam a adolescência comportamental. A análise dos casos sugere que hormônios ativos não geram, isoladamente, comportamento adolescente sem suporte ambiental.
Puberdade, cérebro e ambiente
A puberdade e o comportamento podem ser compreendidos como processos simultâneos, mas não necessariamente equivalentes. Uma via é direta, de caráter organizacional, relacionada à remodelação de estruturas como amígdala, hipocampo e córtex pré-frontal durante a puberdade, com possível aumento da reatividade emocional e da impulsividade. A outra é indireta, de natureza ambiental, mediada pelas reações sociais ao corpo puberal e pelas referências culturais e familiares que cercam a criança.
Traços como reorientação para pares, vaidade, uso de gírias e incorporação de determinados scripts culturais podem emergir mesmo na ausência de ativação hormonal puberal, especialmente quando são modelados por irmãos mais velhos, mídia, ambiente escolar e expectativas familiares.
Estudos sustentam que os esteroides gonadais podem amplificar a intensidade emocional, mas não definem, isoladamente, a identidade social ou os grupos de referência. Da mesma forma, a adrenarca, com elevação de DHEA/S, pode contribuir para manifestações leves de impulsividade, mas não explica comportamentos como vaidade espelhada, linguagem específica ou postura social de “mais velha”. Esses elementos reforçam a importância do ambiente na construção comportamental.
Implicações do tratamento com análogos de GnRH
No contexto da puberdade precoce central, o uso de análogos de GnRH atua sobre a via hormonal direta. O tratamento bloqueia a progressão puberal, freia o desenvolvimento de telarca e pubarca e pode reduzir aspectos relacionados à reatividade emocional vinculada ao eixo hormonal.
Entretanto, a via indireta permanece ativa. Ou seja, a forma como o ambiente reage ao comportamento já instalado continua operando. Assim, quando o comportamento adolescente já foi construído por influências ambientais, o bloqueio hormonal não necessariamente o desfaz.
Essa distinção é relevante para a prática clínica, pois evita a expectativa de que o tratamento hormonal resolva, de maneira automática, manifestações comportamentais que podem ter origem ou manutenção predominantemente ambiental.
Discussão clínica e orientações
Cinco pontos principais emergem dessa análise:
1 – A dissociação entre puberdade e comportamento;
2 – O ambiente como importante arquiteto da identidade adolescente;
3 – A superestimação popular dos efeitos hormonais;
4 – A limitação dos análogos de GnRH à via hormonal direta; e
5 – A necessidade de orientação familiar.
Para prática clínica
Nos casos de puberdade precoce central com comportamento infantil, é importante normalizar a dissociação e orientar a família sobre a diferença entre maturação biológica e maturação psicossocial.
Já nos quadros de “adolescência sem hormônios”, a abordagem deve incluir desmistificação, escuta qualificada e intervenções ambientais, com atenção ao acesso à mídia, aos modelos de comportamento, à convivência com pares e à adequação das expectativas familiares à idade emocional da criança.
Dessa forma, a avaliação clínica deve priorizar não apenas o eixo hipotálamo-hipófise-gonadal, mas também o neurodesenvolvimento, o contexto familiar e os fatores socioculturais envolvidos.
Conclusão
A puberdade abre janelas neurobiológicas importantes, mas não constrói sozinha a identidade adolescente. Os hormônios podem modificar a intensidade emocional e influenciar aspectos do comportamento, mas o ambiente desempenha papel decisivo na organização dos repertórios sociais, culturais e relacionais.
Tratar as alterações hormonais, quando indicado, é necessário. No entanto, sintonizar o ambiente às necessidades emocionais e ao estágio de desenvolvimento da criança é indispensável para uma abordagem integral e protetiva.

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